
Rowling, Funke, Nabokov, Lewis, William P. Young, Niffenegger e outros convivendo em harmonia
Eu sempre fico incomodada quando começam a falar da falta de qualidade literária de determinado gênero. Embora eu mesma tenha meus preconceitos literários - que luto para vencer diariamente -, me incomoda muito como a literatura juvenil é vista por aí. Eu escrevo sobre literatura juvenil no blog, eu leio literatura juvenil, eu aprendi com ela muitas coisas e me divirto lendo. É um prazer, uma coisa que me faz bem e me deixa muito feliz. Logo, a gente se incomoda quando alguém critica uma coisa que nos deixa bem, certo?
Garcia Marquez
Nas últimas semanas, esse incômodo atingiu níveis mais altos enquanto fazia meu ensaio final para uma das disciplinas da faculdade, sobre mercado editorial infanto-juvenil no Brasil. Durante minha pesquisa, me deparei com diversos críticos “detonando” esse nicho literário e questionando seu valor. Respirei, segui em frente e passou. Esses dias, uma professora da escola que estudei me disse que meus professores de Literatura viviam reclamando que eu lia livros “idiotas” no intervalo ao invés de gastar meu tempo com Gil Vicente. Domingo a Bell comentou no Papo Literal sobre preconceito com ficção científica. Então eu li um post sobre “largadores de livros” na coluna Shakespeare Escrevia por Dinheiro no Meia Palavra. Depois eu li um post do Luiz Schwarcz no Blog da Companhiafalando de best-sellers - esse ano a Companhia das Letras tem dois na lista de mais vendidos, após anos sem figurar nela. Ontem estava navegando na internet e vi um comentário em um blog de um visitante que dizia “fulano lê Harry Potter, Percy Jackson, etc, etc, logo se vê que não tem gosto literário”. E hoje, uma pessoa que estudou comigo, sentou ao meu lado no ônibus e começou a me questionar a respeito da minha preferência em relação aos livros. Mas, o mais engraçado é que, quando essa pessoa citou seus autores favoritos, não havia nenhum cânone da literatura entre eles - ao contrário, alguns dos autores que ele enalteceu tem sua qualidade literária questionada frequentemente por muitos críticos. Não que isso faça alguma diferença para mim, mas se você está dizendo que eu leio coisas “ruins”, era de se esperar que você possuísse uma intimidade maior com nomes que ganharam o Nobel de Literatura.
Com tanto assunto assim, eu não poderia ficar quieta. Parece que estão me perseguindo com esse tema e eu acabei ficando com vontade de postar sobre isso aqui no blog. Como eu já disse, também tenho meus problemas com alguns tipos de livros - tenho vergonha, por exemplo, de andar lendo no ônibus livros com capas mais “calientes” -, e acho normal que cada um tenha sua restrição a algum gênero da literatura. Não curto livros de auto-ajuda (já li alguns e confesso que até teve um ou outro que me agradou), mas conheço gente que adora. Tem livros que um monte de gente ama e eu acho uma porcaria. Como leitora, estou no meu direito. Assim como você pode odiar aquilo que eu adoro (embora eu não entenda pessoas que não gostam de Jogos Vorazes, mas a amizade continua…). Mas, se eu leio Meg Cabot e você lê Gabriel García Márquez, isso o faz melhor que eu?

O problema é que ler virou questão de status para algumas pessoas. Afinal, quem não conhece aquela pessoa que enche a boca para falar que já leu A ou B, mas quando perguntamos o enredo ou qualquer outra coisa, a pessoa não lembra uma vírgula, mas é a primeira a te fuzilar porque você leu Crepúsculo semana passada?
Parece que é obrigação conhecer tal título, discutir sobre ele numa mesa de bar e desdenhar de quem não tem “capacidade intelectual” para perceber todas as nuances e a estética do texto de José Saramago. Esqueceu-se muitas vezes o prazer que um livro proporciona e transformaram a literatura em status, onde é legal cutucar Fulano por não gostar de Cicrano de Tal, que ganhou prêmio Nobel, Goethe e qualquer outra coisa que valha. Inventaram a categoria “livros porcaria” e questionaram a inteligência de quem escolhe esses tais livros.
Muitos best-sellers são efêmeros, chegam e daqui a dois anos ninguém lembra que eles existiram. Muitos leitores passam a vida presos a gêneros “sem qualidade” (muitas aspas aqui, odeio esse termo), outros “evoluem”. Esse nariz em pé de muitos leitores só afastam e diminuem o interesse de novos leitores a certos títulos, criam no leitor a ideia que eles não vão gostar de um clássico só porque ele é para ser lido para ser apreciado de longe, não para ser amado, vivido, desfrutado. Tanto o clássico quanto o livro de “consumo rápido” são para serem devorados, degustados, destrinchados. Os dois tem coisas a ensinar, a mostrar. Mas não se pode esperar que um leitor seja formado lendo Machado de Assis logo de cara. Ele precisa aprender aos poucos o quanto a leitura é prazerosa, sem influências externas e sem “leitores chatos”. O que importa é que a pessoa está lendo. Se ela cria esse vínculo e essa paixão pelo livro, ela vai acabar descobrindo novas coisas e se encontrando nesse universo. Logo, numa visão bem otimista, teremos cada vez mais leitores, que é uma formação lenta (e sabe o que mais leitores significa? Tiragens maiores. E o que isso significa? LIVROS MAIS BARATOS).
Monteiro Lobato
Como dizia Sr. Monteiro Lobato, “Um país se faz com homens e livros”. A literatura precisa ser popularizada, amada, aclamada. Leitura é identificação. Somos pessoas diferentes, logo nos identificamos com coisas diferentes. Então, se você ama Thalita Rebouças e seu amigo ama Graciliano Ramos, o melhor é conviver com essas diferenças, sem torcer o nariz para um ou outro. Ninguém é igual, então gostamos de livros diferentes e aprendemos com eles a nosso modo. Até um livro “bobinho” tem algo a ensinar. Então vamos trocar mais experiências e crucificar menos? É melhor aproveitar seu livro do que se importar com o que o amiguinho está lendo. Vamos parar de ler por status e ler por amor. Os leitores agradecem.